Passaram-se alguns minutos de silêncio tenso, interrompido apenas pelo canto ocasional de pássaros e o farfalhar das folhas ao vento.
Ent?o veio o som.
Rodas rangendo contra pedras soltas. Casco de cavalos batendo ritmado. A carro?a surgiu na curva da estrada, lenta e pesada.
O condutor era um homem de barba espessa e armadura vermelha enferrujada, o tipo que já vira muitas estradas ruins. Ao seu lado, outro homem sentado. Quatro a pé: dois de cada lado da carro?a, armados com espadas curtas e escudos pequenos. Nada de elite. Homens comuns, pagos para carregar e proteger carga.
Eirwen n?o esperou.
Levantou-se dos arbustos num movimento fluido e soltou a flecha.
O projétil cortou o ar com um silvo baixo e preciso. Penetrou a testa do condutor sem hesita??o. O homem tombou para frente, inerte, as rédeas escapando das m?os. Os cavalos pararam confusos, a carro?a rangeu até parar.
O homem ao lado do condutor pulou para o ch?o, espada já na m?o, olhos arregalados em alerta.
— Agora, ataquem! — gritou Eirwen.
As sombras da floresta ganharam vida.
Arkin, Skyler e Darius saíram dos esconderijos como fantasmas.
Um dos bandidos avan?ou diretamente contra Arkin, espada erguida em um golpe descendente tosco. Arkin ergueu a lamina gasta para bloquear. O impacto fez seus dentes rangerem, a espada velha absorveu mal a for?a. Com um empurr?o rápido, desviou a arma do oponente para o lado e contra-atacou, mirando a garganta.
A lamina desgastada cortou, mas o corte foi superficial. Apenas um risco vermelho na pele, nada letal.
O homem recuou um passo, surpreso, e avan?ou novamente.
Antes que pudesse completar o movimento, uma flecha veio de lado e cravou-se na testa dele. O corpo caiu como um saco de gr?os.
Arkin ergueu os olhos violeta. Eirwen já puxava outra flecha da aljava, o arco tensionado, o olhar frio e profissional.
Do outro lado, Skyler dan?ava com o homem que descera da carro?a. Adagas curvas girando em arcos rápidos e precisos. O bandido desviou o rosto por um triz; uma linha fina de sangue surgiu na bochecha.
— Parece que você errou — zombou o homem, sorrindo.
— Talvez sim… — Skyler devolveu o sorriso, afiado como suas laminas. — Ou talvez n?o.
— O qu—?!
O homem cuspiu sangue. Seus olhos se arregalaram em choque enquanto o corpo come?ava a tremer. Veias negras subiram pela pele como raízes podres. Ele caiu de joelhos, depois de cara no ch?o. Veneno. As adagas de Skyler n?o eram apenas afiadas; eram letais.
Eirdis ergueu a besta e disparou uma seta pesada que atravessou o peito de outro bandido. Darius girou o machado em um arco amplo e brutal, decapitando o terceiro com um golpe limpo. Elara ergueu o cajado; uma bola de fogo se formou na ponta e voou, envolvendo o último homem em chamas que o consumiram em segundos.
Silêncio.
A carro?a parada, cavalos bufando nervosos, corpos espalhados pela estrada.
Eirwen baixou o arco e caminhou calmamente até a carro?a.
— Parece que conseguimos.
Arkin embainhou a espada gasta e se aproximou dela.
— Você matou o meu oponente.
— Eu salvei sua vida — corrigiu Eirwen, abrindo a lona da parte traseira da carro?a. — Por que n?o usou magia?
Ela inspecionou rapidamente as caixas de madeira.
— Hm… os remédios est?o todos aqui. Intactos.
Arkin parou ao lado dela, olhando os corpos.
— S?o só homens de segunda divis?o.
— Você é bem observador — disse Eirwen, fechando a lona e contornando a carro?a. — Eram mesmo da segunda divis?o dos Ossos do Dem?nio. Nada de elite. Só capangas baratos.
Ela acenou para Eirdis, que subiu na boleia e pegou as rédeas. Skyler pulou para o lado dela, sentando-se ao lado. Darius e Elara desapareceram entre as árvores, assumindo posi??es ocultas para proteger a carro?a de possíveis refor?os.
The tale has been stolen; if detected on Amazon, report the violation.
Eirdis estalou as rédeas. A carro?a come?ou a se mover devagar pela estrada.
Eirwen pendurou o arco nas costas e gesticulou para Arkin. Os dois come?aram a caminhar ao lado da carro?a, a pé, mantendo o ritmo.
— Pra onde vamos levar isso? — perguntou Arkin.
— Relaxa, n?o é pra capital — respondeu Eirwen. — é pra Rorith, a cidade ao sul daqui.
— Ainda é território de Rothnia.
— Está preocupado que os soldados possam te achar lá?
— O que você acha?
Eirwen deu de ombros.
— N?o se preocupe. A seguran?a em Rorith é péssima. Sabe quem colocou recrutas inexperientes para cuidar daquela cidade?
Arkin respondeu sem pensar.
— O comandante Elric… — Ele parou, corrigindo-se. — Quer dizer… o Elric.
Eirwen ergueu uma sobrancelha, mas n?o comentou.
— Você trouxe dinheiro com você?
— Vai me cobrar por entrar no bando?
— Claro que n?o, está louco? — Ela virou o rosto para ele, os olhos prateados sérios. — Vai precisar de equipamentos. Essa espada aí é risco de morte na certa. Conhe?o um an?o em Rorith. Ele faz o melhor equipamento da regi?o. Forja runas, laminas que n?o quebram fácil… esse tipo de coisa.
Arkin olhou para a espada gasta na bainha. A lamina que o acompanhara desde antes do juramento. Antes de tudo.
— Bom… vou realmente precisar de equipamento melhor.
Eirwen deu um leve sorriso.
— Ent?o é isso. Bem-vindo à vida real, Arkin Graves. Nada de castelos dourados, nada de juramentos eternos. Só contratos, pagamento e sobrevivência.
— Há mal posso esperar — murmurou Arkin, o tom carregado de ironia seca.
A carro?a entrou pelos port?es de Rorith sem qualquer inspe??o. Os recrutas mal ergueram os olhos da conversa fiada; um deles até bocejou enquanto a carga passava. Arkin lan?ou um olhar rápido para os rostos deles, jovens, inexperientes, rostos que ele n?o reconhecia. Provavelmente recém-transferidos de alguma fortaleza distante nas fronteiras de Rothnia. Ninguém que pudesse identificá-lo à primeira vista.
Ele seguiu Eirwen para dentro da cidade, os passos silenciosos misturando-se ao burburinho da multid?o.
— Ei, vocês dois — disse Eirwen, virando-se para Eirdis e Skyler na boleia. — Levem a carro?a de volta pro contratante. Eu levo Arkin até o ferreiro.
— Como quiser, chefe — respondeu Skyler com um aceno pregui?oso.
— Nos encontramos no acampamento — completou Eirdis, estalando as rédeas. A carro?a rangeu e desapareceu na rua lateral, engolida pelo fluxo de pessoas e carro?as.
Arkin e Eirwen seguiram na dire??o oposta. Enquanto caminhavam pela multid?o barulhenta do mercado, Arkin varria as paredes dos estabelecimentos com os olhos violeta atentos: cartazes de procurados, avisos reais, qualquer coisa que pudesse anunciar sua deser??o. Nada. Ainda n?o.
— Parece que aqui ainda n?o receberam a notícia do seu desaparecimento — comentou Eirwen, caminhando à frente com passos confiantes.
— Esse an?o… — Arkin desviou de um vendedor ambulante carregando cestos de frutas. — Ele é confiável?
— N?o se preocupa. Ele vai guardar segredo.
Eles viraram em uma rua mais estreita, ladeada por estabelecimentos de ofícios pesados: ferrarias, armarias, oficinas de couro. O cheiro de carv?o quente e metal derretido impregnava o ar. No final da rua, uma placa de madeira desgastada balan?ava na frente de uma loja baixa e robusta:
“Os Melhores Equipamentos dos Reinos”
Arkin desviou o olhar e balan?ou a cabe?a levemente. Eirwen empurrou a porta pesada sem cerim?nia. Um sino tilintou acima deles.
— Merda… quem é o desgra?ado que entra na minha loja a essa hora? — trovejou uma voz grossa de trás do balc?o.
Um an?o de barba ruiva espessa e cabe?a completamente careca surgiu da sala dos fundos, carrancudo. Seus olhos se arregalaram ao reconhecer Eirwen. A carranca se transformou em algo próximo de um sorriso torto.
— T?o gentil como sempre, Doraar — disse Eirwen, cruzando os bra?os.
— Oh, é a princesinha daquele bando de desgra?ados — retrucou o an?o, apoiando os cotovelos no balc?o. — O que te traz aqui, garota?
— Esse homem — ela estendeu a m?o na dire??o de Arkin. — é o novo membro do bando. Minha dupla. Ele precisa de um bom equipamento. O melhor que você tiver.
Doraar alisou a barba enquanto se aproximava, medindo Arkin de cima a baixo.
— Hmmm… o quanto você pode pagar, garoto?
Arkin desprendeu a bolsa de moedas do cinto e a estendeu. O an?o pegou, sentiu o peso e deu um grunhido de aprova??o.
— Certo, isso é suficiente. — Ele ergueu os olhos para o rosto de Arkin. — Espera um pouco aí… ei, moleque, tira esse capuz.
— O quê…?
— Anda logo, remove esse capuz aí.
— Faz o que ele tá dizendo — murmurou Eirwen.
Arkin suspirou e puxou o capuz para trás, revelando os cabelos negros e os olhos violeta intensos.
Doraar piscou uma vez. Depois outra.
— Garota… — come?ou ele, voz baixa. — Você sabe que ele é…?
— é ele — confirmou Eirwen, encarando o an?o sem piscar. — Fugiu do reino e entrou pro bando. Por isso, seu an?o estressado… vai guardar segredo, né?
Doraar balan?ou a cabe?a devagar, como se estivesse processando a informa??o. Depois gesticulou com o polegar grosso na dire??o da porta atrás do balc?o.
— Vem comigo, garoto.
Arkin o seguiu.
Passaram-se alguns minutos. Quando Arkin saiu novamente, estava irreconhecível.
Armadura completamente negra, forjada em mithril puro, leve como couro, mas resistente como a?o encantado. Manoplas de ferro negro cobriam os antebra?os, refor?adas com runas sutis que brilhavam fracamente ao toque de luz. Uma capa preta com capuz profundo caía sobre os ombros, a pele de lobo negro bordada nas bordas, macia e silenciosa.
Eirwen arregalou os olhos levemente. Por um instante, o ar pareceu mais pesado.
— Tá aí — disse Doraar, orgulhoso. — Minha melhor cria??o. A armadura é mithril puro, leve o suficiente pra n?o te atrasar, dura o suficiente pra aguentar um drag?o. A capa é pele de lobo das montanhas do norte. Silenciosa, quente, e quase invisível na noite.
— E a espada? — perguntou Arkin, a voz baixa sob o capuz.
— Ah, eu ia esquecendo disso…
Eirwen tossiu duas vezes, olhando de soslaio para Doraar.
Ela fez um gesto sutil com a cabe?a. Algo passou pelos olhos do an?o, um entendimento silencioso.
“Oh, ent?o você planeja dar aquilo a ele” pensou Doraar.
— Bom, n?o tenho espada pra você agora, Arkin — disse ele em voz alta. — Se eu soubesse o comprimento exato daquela sua espada de prata que você usava como guardi?o, poderia fazer uma sob medida. Mas…
— N?o pode consertar a que eu trouxe?
— Joga aquela merda no lixo — resmungou Doraar. — Agora se mandem daqui. E n?o se preocupa, Arkin… teu segredo tá guardado comigo.
Arkin come?ou a caminhar em dire??o à porta. Eirwen trocou um olhar cúmplice com o an?o antes de segui-lo.
Lá fora, o sol batia forte nas ruas de Rorith. A nova armadura negra absorvia a luz em vez de refleti-la, fazendo Arkin parecer uma sombra ambulante.
Ele parou por um segundo, ajustando o capuz.
— Obrigado — disse simplesmente.
Eirwen deu um meio-sorriso.
— N?o agrade?a ainda. Agora você parece de verdade um mercenário das Garras de Ferro. Vamos pro acampamento. Os outros devem estar esperando.

