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Capítulo 2 – Eu Sirvo o Big Bang

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  Capítulo 2 – Eu Sirvo o Big Bang

  Servir o Big Bang é muito mais difícil do que cozinhá-lo.

  Cozinhar é um ato solitário. Eu fico na cozinha, sozinha com o silêncio do vazio cósmico, ouvindo apenas o som da expans?o lenta do universo borbulhando nas panelas. Ali, ninguém me observa. Nenhuma expectativa pesa sobre minhas m?os. O Big Bang se deixa moldar, temperar, dividir em por??es compreensíveis. Ele obedece.

  Mas servir… servir é um ritual.

  O sal?o do meu restaurante n?o existe até alguém entrar. Ele se manifesta conforme a necessidade do cliente, como se o próprio espa?o tivesse vergonha de se mostrar antes da hora. Mesas surgem do nada, cadeiras se formam a partir de poeira conceitual, talheres se materializam com um leve atraso, como se estivessem pensando se realmente querem participar daquilo.

  Naquela ocasi?o, o sino da porta tocou de um jeito diferente.

  N?o foi um som metálico. Foi um eco profundo, grave, que parecia vir de dentro do meu peito e n?o da entrada. O restaurante se expandiu um pouco mais do que o normal, como se estivesse… cauteloso.

  Eu enxuguei as m?os no avental de poeira estelar e olhei para a porta.

  O cliente entrou sem pedir licen?a ao espa?o.

  Ele n?o tinha uma forma fixa. às vezes parecia humano, às vezes parecia uma sombra vestida de lembran?as. Seu rosto mudava quando eu piscava, como se estivesse tentando decidir qual vers?o de si mesmo apresentar.

  — Boa noite — eu disse, porque educa??o é importante, mesmo quando o universo entra para jantar.

  — Isso aqui… é real? — ele perguntou.

  Stolen from its rightful author, this tale is not meant to be on Amazon; report any sightings.

  Essa pergunta é comum.

  — é o suficiente — respondi.

  Ele se sentou. Ou algo equivalente a isso. A cadeira se ajustou sozinha, rangendo levemente, como se estivesse desconfortável com o peso existencial do cliente.

  — Dizem que você serve o Big Bang — ele falou. N?o como acusa??o, nem como curiosidade. Soou como um aviso.

  — Sirvo sim — respondi. — Cozinho também, mas isso você já deve saber.

  O cardápio apareceu na mesa dele, se escrevendo sozinho. As letras brilhavam como estrelas jovens, instáveis, prontas para explodir se lidas rápido demais.

  — Eu n?o estou com fome — ele disse.

  Sorri.

  — Ninguém que entra aqui está.

  Fui até a cozinha. A panela principal ainda vibrava com energia primordial. O Big Bang ali dentro n?o era o todo, claro. Ninguém pode servir o todo. Era apenas uma fra??o domesticada, um fragmento do primeiro instante, reduzido a algo que pudesse ser sentido sem destruir completamente quem comesse.

  Enquanto preparava o prato, senti algo estranho. O Big Bang reagia ao cliente. Isso n?o acontecia sempre. Normalmente, o ingrediente aceita qualquer destino. Mas daquela vez, ele parecia… inquieto.

  — Ent?o é você — murmurei para a panela.

  Peguei uma tigela pequena. Delicada. Nada amea?adora. Servir o Big Bang em recipientes grandes é arrogancia culinária.

  Quando voltei ao sal?o, o cliente estava olhando para as próprias m?os, que agora tremiam levemente.

  — O que você perdeu? — perguntei, colocando a tigela à frente dele.

  — Tudo — respondeu.

  Essa também é uma resposta comum.

  O prato à sua frente se chamava Big Bang Essencial, a forma mais pura que eu costumava servir. Sem enfeites, sem acompanhamentos. Apenas o sabor do início, cru, honesto, impossível de esquecer.

  — Se eu comer isso… — ele come?ou.

  — Você vai lembrar — completei. — N?o de tudo. Mas do suficiente.

  Ele segurou a colher. A colher também tremia. N?o de medo, mas de expectativa. Utensílios sabem quando est?o prestes a participar de algo importante.

  — Por que você faz isso? — ele perguntou. — Por que servir algo t?o… perigoso?

  Olhei ao redor do restaurante. Para as mesas vazias que ainda guardavam ecos de conversas passadas. Para o teto que mostrava um céu que n?o existia em lugar nenhum.

  — Porque o universo come?ou sem pedir permiss?o — respondi. — O mínimo que posso fazer é permitir que ele seja experimentado com consciência.

  Ele levou a colher à boca.

  O tempo engasgou.

  Por um instante, o sal?o inteiro se expandiu. As paredes se afastaram, revelando flashes de galáxias nascendo, partículas se separando, luz aprendendo a existir. O cliente fechou os olhos, e lágrimas escorreram — n?o de tristeza, mas de sobrecarga.

  Quando ele terminou, a tigela estava vazia.

  — Eu lembro — disse ele, com a voz quebrada. — Eu lembro de quem eu era antes de desistir.

  Assenti.

  — é o efeito colateral mais comum.

  Ele se levantou. A forma dele agora parecia mais estável, mais definida, como se tivesse decidido existir de novo.

  — Quanto eu devo? — perguntou.

  Apontei para o peito dele.

  — Você já pagou.

  Quando ele saiu, o restaurante come?ou a se desfazer novamente, satisfeito. Voltei para a cozinha, lavei a tigela com água que n?o vinha de lugar nenhum e anotei mentalmente:

  O Big Bang ainda funciona. O universo ainda tem fome. E eu… eu ainda sei servir.

  E enquanto houver alguém perdido o suficiente para procurar esse lugar,

  eu continuarei abrindo a porta,

  acendendo o fog?o

  e servindo o come?o de tudo.

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