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60. Ecos do ofício

  O castelo n?o fechou atrás dele.

  A água apenas deixou de observar alguns corredores.

  Ribeiro andava ao lado de Aqua e, ainda assim, n?o andava com ela. às vezes seus passos coincidiam; às vezes o mundo demorava meio segundo a admitir que ele havia avan?ado. O atraso era discreto, um dente fora do lugar na boca do tempo, e isso o deixava com a sensa??o constante de estar um passo atrás de si mesmo.

  — "Você ficou mais calado."

  Ribeiro respirou fundo.

  — T? pensando.

  — "Perigoso."

  Ele deu de ombros.

  — Sempre foi.

  Aqua disse isso sem olhar. O rosto era o mesmo, a ironia suave de sempre; a presen?a, porém, carregava agora um peso organizado. As paredes líquidas ao redor se reorganizavam enquanto passavam: caminhos surgiam onde antes havia parede, trilhas sumiam como lembran?as mal feitas. O castelo lembrava por ela. Ele lembrava por ninguém.

  Ribeiro parou por um instante.

  — Sobre o contrato.

  A água ao redor congelou.

  N?o foi silêncio natural. Foi conten??o absoluta, t?o afiada que doeu como lamina invisível.

  — "O que tem ele?"

  — Eu sei onde tá o cora??o do mar.

  Aqua virou o rosto devagar, sem pressa, como quem já media consequências antes da surpresa.

  — "Sabe?"

  — Yep.

  O silêncio que se seguiu n?o foi vazio.

  Foi cálculo.

  — "Ent?o me diga."

  Ribeiro abriu a boca.

  Nada saiu.

  A certeza tinha existido antes da linguagem. Agora restava apenas o rastro do contato perdido.

  — …Eu n?o sei.

  A frase n?o veio como dúvida. Veio como perda.

  Aqua ergueu uma sobrancelha, gesto curto, quase uma ordem.

  — "Decida."

  — Eu sabia agora há pouco.

  Ele levou a m?o à cabe?a, incomodado.

  — Tipo… certeza. N?o dedu??o. N?o teoria.

  — "E agora?"

  — Agora tá escorrendo.

  Aqua observou em silêncio por alguns segundos que pareceram longos demais para serem humanos. Ent?o falou, direta:

  — "Abra."

  Ribeiro franziu o cenho.

  — O quê?

  — "Seu sistema."

  — Sistema?

  Aqua inclinou levemente a cabe?a, como quem percorre uma lista que já teve nomes demais.

  — "Consciência."

  Uma pausa.

  — "Interface."

  Outra.

  — "Arquivo vivo."

  Ela completou:

  — "Observa??o interna."

  O silêncio pesou.

  — "Você já acessa."

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  Aqua continuou.

  — "Só nunca pediu permiss?o."

  Algo atrás dos olhos de Ribeiro cedeu, como uma porta que nunca fora feita para abrir.

  — E… como?

  — "Modo bruto."

  Ribeiro engoliu seco.

  — Isso n?o parece seguro.

  Aqua desviou o olhar.

  — "N?o é."

  Uma fra??o de segundo.

  — "Mas é manuten??o."

  O mundo recuou.

  N?o fisicamente.

  Conceitualmente.

  A névoa ao redor dele retrocedeu levemente, como algo prendendo a respira??o. A água se afastou o suficiente para formar um círculo de espa?o funcional. N?o hostil. Preparatório.

  O castelo insinuava, sem palavras:

  Agora vamos ver.

  Ribeiro levou a m?o ao peito.

  O castelo desapareceu para ele.

  A biblioteca n?o veio inteira.

  Veio quebrada.

  Prateleiras partidas flutuavam num vazio instável. Livros abertos sem páginas. Símbolos amputados, aceitando apenas metade do que um dia foram. Linhas de texto corroídas, como se o sentido tivesse sido roído de dentro para fora.

  Era como entrar numa língua que perdera o alfabeto no meio da frase.

  O silêncio ali n?o era ausência.

  Era espera.

  — "…Uhh."

  A voz de Aqua surgiu encaixada no espa?o, n?o vinda de fora.

  — "Magias…"

  Uma pausa curta.

  — "Pilares…"

  Outra.

  — "Bên??os…"

  Ela suspirou.

  — "Você n?o organiza isso n?o?"

  Um silêncio irritado.

  — "Que bosta…"

  Algo se moveu.

  N?o as prateleiras, mas a prioridade delas.

  Um símbolo antigo, quase apagado, ganhou contorno.

  — "Achei."

  A presen?a dela se firmou.

  — "'Biblioteca de askafin'. Toca aqui."

  Ribeiro n?o tocou.

  Pensou.

  E o sistema respondeu.

  O ambiente inteiro se reorganizou, como se tivesse esperado por aquele pensamento desde sempre.

  — "Tá."

  Aqua concluiu.

  — "Entendi o funcionamento."

  Ela continuou:

  — "Fecha os olhos."

  Ribeiro obedeceu.

  — "Agora pensa numa sala."

  — "Completa."

  — "Fechada."

  — "Nada flutuando."

  O caos hesitou.

  Por um instante, pareceu incapaz de obedecer.

  Ent?o cedeu.

  As prateleiras se alinharam. O ch?o ganhou prioridade. O teto surgiu por exclus?o. A informa??o parou de vazar pelos cantos.

  A sala existiu.

  — "Pronto."

  Aqua n?o soou satisfeita. Apenas funcional.

  — "Sistema aberto."

  Uma pausa mínima.

  — "Observa??o ativa."

  No centro da sala mental, algo surgiu.

  Um painel.

  N?o era luz. N?o era ordem.

  Era o esbo?o de uma máquina que desistira de entender o sujeito que tentava descrever.

  Ribeiro leu.

  N?o pediu permiss?o.

  A informa??o entrou por press?o, mais sensa??o que leitura.

  — …Eu t? lendo sem saber?

  A pergunta ecoou em lugar nenhum.

  Por isso, respondeu em todos.

  A névoa falou.

  N?o como forma.

  Como presen?a espalhada entre fragmentos.

  — "Você sempre fez isso."

  Outra camada de voz.

  — "Aqui é silencioso."

  — "Dá pra pensar."

  Um nó apertou no peito de Ribeiro.

  N?o medo.

  Reconhecimento tardio.

  — Ent?o era por isso…

  A névoa respondeu, calma.

  — "Enquanto você vive, eu estudo."

  — E por isso você some?

  — "Consciência n?o é ausência."

  — "é foco."

  Ribeiro voltou o olhar ao painel.

  As habilidades apareciam como relíquias: descri??es incompletas, advertências raspadas, custos arrancados por m?os que n?o queriam que se soubesse o pre?o. Os pilares surgiam como colunas trêmulas, sustentando algo grande demais para um corpo só.

  No fundo, arranhado como tatuagem antiga, estava o nome do acordo:

  Contrato das Guelras.

  A voz de Aqua atravessou o espa?o mental sem invadir.

  — "Status?"

  — N?o cumprido.

  — "Tempo?"

  — Dois meses.

  O silêncio que caiu foi antigo, pesado, cheio de marés que já haviam passado.

  — "Você sabia que o cora??o tava com um Leviathan?"

  Ribeiro assentiu devagar.

  — …Agora sei... De verdade...

  Aqua fechou os olhos por um instante.

  Curto demais para ser humano.

  — "Qual?"

  — O que dorme onde o fundo n?o devia ter memória.

  Ela riu.

  Curto.

  Sem humor.

  — "Claro."

  O mundo voltou.

  O castelo reapareceu mais atento. A água perdera parte da paciência que a tornava tolerante.

  — Eu trouxe seguidores.

  A confiss?o saiu quase como defesa.

  — Humanos. Falei de você.

  Aqua virou-se para ele.

  — "E?"

  — Isso n?o conta?

  Ela inclinou a cabe?a.

  — "Você acha que eu negocio custos?"

  Ribeiro respirou fundo.

  — Eu n?o quero devotos.

  Aqua disse, clara.

  — "Quero compromisso."

  Ele sentiu o peso disso.

  — Se eu for lá… posso n?o voltar.

  — "Pode."

  — Posso voltar pior?

  — "Bem provável."

  — Posso trazer coisa que n?o devia?

  Aqua sorriu.

  Sem do?ura.

  — "Você já trouxe."

  As paredes se abriram à frente.

  N?o para dentro do castelo.

  Para fora.

  Um corredor de água sólida apontava para o abismo além do domínio.

  Aqua falou baixo.

  — "Vai."

  Depois completou:

  — "O contrato n?o espera."

  Uma última camada de voz.

  — "Nem o que está no fundo."

  Ribeiro deu um passo.

  O mundo atrasou.

  Depois seguiu.

  E, quando atravessou o corredor de água sólida, o castelo fez silêncio atrás dele, como se devolvesse o favor de lembrar, em troca do risco que acabara de liberar.

  


  


  


  


  


  


  


  


  


  


  


  


  


  


  


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