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Capítulo 52 - Não Voltarão Mais

  Atrás de Edina, a menina permanece recolhida em seus próprios bra?os enquanto aperta a pelúcia contra o peito. Coberta pelo seu manto negro, o silêncio agora é desconfortante…

  “P-Preciso falar alguma coisa… Estamos c-caminhando em silêncio já faz um tempo.”

  Acelerando um pouco mais os passos, Jeanice se aproxima da lateral da outra.

  一 S-Se passaram dez anos desde que a corrup??o explodiu, n-né? Naquele dia, e-eu sai correndo pra fugir dos meus irm?os e só vi de longe às Trevas engolindo tudo… Por sorte, eu t-tava segura na floresta…

  O semblante dela se abaixa ao encarar os próprios pés descal?os em seus passos. Nesse momento, Edina a observa de soslaio com desgosto. Os olhos esverdeados da mo?a reviram, mas rapidamente recobra a aten??o.

  一 Eu estava em um lugar seguro também. Houveram partes que às Trevas n?o engoliram e, ainda assim, pouco tempo depois, Imoriel apareceu pra tentar equilibrar as coisas…

  “Imoriel…”

  Espremendo os lábios escuros, a meio-elfa respira fundo. Ela deveria descobrir o máximo que podia para contar pros outros quando se encontrarem.

  一 P-Por acaso você sabe onde Ele está?

  一 Rosebond… Ele tá no Campo Rosebond, na fronteira entre o território de Balmund e Roderich.

  Respondeu de maneira desinteressada. N?o fazia quest?o de saber o porquê dessa garota perguntar sobre uma das Calamidades… O que ela quer é chegar no seu quarto o mais rápido possível.

  “Rosebond…! Fica mais ao leste daqui… é a fronteira de mais tens?o entre os Grandes Reinos… Sempre houve atrito entre a Calamidade da Guerra que governa Balmund e a Calamidade da Natureza que governa Roderich.”

  Pensativa, o problema agora seria como se infiltrar no meio desse caos absoluto. Sua habilidade n?o seria o suficiente para parar uma batalha por tempo o suficiente e dar abertura à Raisel chamar Imoriel.

  “Eu devo perguntar sobre o amuleto? N?o… Ela provavelmente n?o iria gostar… Espera. Tem alguma coisa errada…”

  Olhando os arredores, nenhum Bealerim os atacou. N?o haviam pessoas corrompidas vagando pelas ruas… Somente as duas que se encaminham diretamente para onde os Pag?os hostis est?o.

  Apreensiva, Jeanice come?a a suspeitar conforme elas subiam as escadarias que d?o acesso ao território do Castelo.

  Engolindo seco, sabia que n?o tinha como vencer a amiga em uma disputa física. Porém, até mesmo em uma colis?o de poderes, a meio-elfa n?o se sentia segura e confiante.

  Ao subirem as escadas, n?o há guardas no port?o principal. Ele está completamente aberto…

  Tremores pelos arredores chacoalham as constru??es de concreto. O estrondo contínuo é amenizado pelo barulho t?o alto quanto das batidas de seu cora??o.

  一 O-O que foi isso?

  Preocupada, se encolhe ainda mais.

  一 Você deveria saber… Seus amigos est?o fazendo uma baita confus?o… Apesar de ser inútil.

  Ao fim, suspirou.

  一 V-Você vai me prender?

  Com a m?o destra sobre a varinha, poderia tentar escapar caso a surpreendesse.

  一 N?o... Quero te mostrar uma coisa.

  Mas ao ouvir essas palavras, pareceu mais curiosa do que cuidadosa. Mesmo com a m?o pronta para sacar a varinha por debaixo do manto, elas continuam a caminhar.

  Elas passam pelo sal?o central completamente desértico…

  As escadas colaterais ficam para trás…

  Segundo… Terceiro… Quarto andar é onde elas param de subir.

  一 Jinny, você se lembra da minha avó, n?o é?

  一 S-Sim… Ela era m-muito boa comigo.

  Encarando as costas da mulher madura, elas agora caminham por um extenso corredor em dire??o à última porta ao fundo.

  一 Nós se conhecemos por conta dela… Viramos amigas por causa dela. Mas quando ela desapareceu, os jardins ao redor da cidade apodreceram como se tivessem sido envenenados.

  Em silêncio, a menina a ouve. O som dos saltos da mulher ecoam pelo corredor vazio. A cada passo, o cora??o pulsante fica cada vez mais ansioso… As falas da mulher s?o carregadas de emo??es que Jeanice n?o compreendia.

  一 Quando a corrup??o aconteceu, nós tomamos o Castelo dos Asdoth para nós. Você nunca deve ter vindo até esse andar, ou muito menos saber da verdade no desaparecimento da vovó.

  Os ombros da garota pálida est?o tremendo. Ela engole a própria saliva, mas parecia ter ingerido mil agulhas para dentro do est?mago. O suor frio que escorre pela sua nuca, pela sua testa… Sentia uma energia pesada esmagadora vindo da porta ao fundo.

  Paradas de frente a ela, Edina virou-se enquanto o palmo destro encostou sobre a madeira ornada.

  一 O seu irm?o, Yulian. Você se lembra dele?

  Apertando o Senhor Oddy nos bra?os, a cabe?a de Jeanice se abaixa.

  Memórias antigas de quando era espancada por ser irm?os ardem por cada cicatriz. Seja nas marcas de sua coceira, ocultas pelas bandagens, ou nos hematomas e cortes que ainda tingem a sua pele….

  No centro desse trauma, a figura de cabelo rosa e loiro, era quem mais sorria de modo diabólico. Ela n?o se lembra direito do rosto dessa pessoa, somente do sorriso e das gargalhadas… Das palavras de desprezo…

  一 S-Sim…

  一 Foi ele… Ele quem sequestrou a Willy da gente.

  O olhar de Jeanice sobe em prantos.

  Ao encarar Edina, ela está… sorrindo?

  Confusa, as íris azuladas estremecem sem conseguir encará-la em um ponto fixo. A fraqueza em seu corpo reaparece para fazer as suas pernas tremerem. Temendo seguir em frente.

  O palmo da Truman sobre a madeira da porta, simplesmente desliza para a ma?aneta. O ranger da sua abertura, demonstra ser antiga o suficiente para se assemelhar a uma risada maquiavélica.

  Da aresta, o cheiro pútrido invade as suas narinas. Seria esse odor uma consequência do mal, ou algo a mais…?

  Ao fundo, o quarto é enorme. Está quase completamente escuro, mas com poucas velas acesas contra cada canto.

  一 Entre.

  Na parede central, há uma enorme vidra?a quadriculada que permite a invas?o do luar, estendendo-se para cima como um arco. No centro do quarto, havia alguém… familiar.

  A mulher caminha para dentro enquanto espera Jeanice passar.

  A porta finalmente se fecha enquanto a garota encara perplexa aquela cena.

  一 E-Essa é…

  一 Sim. é ela.

  A idosa está recolhida entre as próprias pernas.

  A pose dela é inconfundível.

  Sob a perspectiva da meio-elfa, ela ainda estava regando os arbustos com seu sorriso aconchegante.

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  Porém, ao se aproximar, percebe que a energia emanada é a mesma que a de Edina.

  Por trás, a Truman come?a a rir sem abrir os lábios… Os ombros subindo e abaixando, contrastam a sua gra?a distorcida.

  Ainda ajoelhada de frente para a velha, Jeanice olha para trás sem entender. A boca entreaberta fixa a express?o de surpresa.

  一 Desculpa, desculpa… é que eu n?o consigo parar de pensar…

  一 Sobre o qu?o patética você é.

  A voz da mulher come?a longe, mas continua a falar sobre o pé do ouvido.

  Virando o rosto lentamente para a idosa, os olhos azuis encaram um rosto vazio, com olhos furados em um vazio abismal. N?o há olhos.

  A velha gentil está com a boca costurada pelas bochechas, indicando que seu maxilar estava quebrado, ou melhor, rasgado em dois…

  Enquanto a carca?a de Willy levanta, fica mais visível os seus membros todos costurados, como se houvessem colados de volta no lugar.

  Aterrorizada, a menina cai para trás.

  一 Yulian me transformou nisso, Jinny. Aquele verme, que sempre tentou ser uma garota, a invejou… A única filha dos Asdoth e uma bastarda. Amada pela natureza, mas odiada pelos seus familiares e invejada pelo filho mais velho… Esquecida, abandonada… é ir?nico, n?o?

  Com os passos curtos e a voz rouca, a marionete de carne e osso caminha com as m?os para trás, circulando ao redor da garota que tem a respira??o descontrolada.

  O pavor invade a sua mente como nunca antes.

  O peito estufa, mas murcha t?o rápido quanto as batidas de seu cora??o. A cabe?a dela dói. A coceira insuportável em seus bra?os pinicam como mordidas de infinitas formigas…

  Ela se encolhe entre as pernas. Ao se abra?ar, as unhas afiadas deslizam rasgando a própria pele por baixo das bandagens.

  一 N-N?o… N?o- N?o…

  A mulher, dessa vez, come?a a caminhar para próximo da marionete. De perto, se inclinou para beijar a testa da sua própria avó… controlada por ela mesmo.

  一 E sabe o melhor, Jinny? Eu segui a ideia brilhante do Yulian e fiz ainda mais da nossa arte~

  Encarando a outra com os olhos encharcando o semblante, as gotas de sangue se misturam às lágrimas que escorrem de seus olhos.

  Edina sobe o olhar em dire??o ao teto.

  Jeanice… também levanta o olhar choroso.

  Iluminados pelo brilho prateado do luar, a vidra?a alta quadriculada deixa claro quem s?o aqueles. Pendurados em fios, seus membros também est?o costurados como marionetes de carne e ossos.

  O odor podre que preenche o quarto, portanto, vem de cima. Dos cadáveres em suspens?o como meros bonecos para serem usados.

  “A-Aquele é… o Yulian?”

  Mais à frente, a cabe?a dele está fincada contra o próprio peito. A cabeleira loira e rosa escorre abd?men abaixo… O pesco?o vazio, apenas contrasta que seus membros s?o encaixes de alguém que os controla.

  “Ernet… Cicilian… Pai…”

  Todos lado a lado em poses distintas, com membros embaralhados: perna no lugar dos bra?os, bra?os no lugar das pernas…

  Os olhos arregalados, no fim, come?am a compreender tanta maldade.

  一 Eu chamo esse quadro de “Distorsions de l'oubli”... E a pe?a final, pra ela finalmente ficar completa, é você… Jinny~

  Com um abaixar do dedo, as marionetes suspensas come?am a cair uma após a outra. Contudo, a velhinha Willy permanece abra?ada com a sua neta.

  Indo para o canto da sala, deveria aproveitar o máximo que podia do sofrimento da meio-elfa antes de colocá-la em sua cole??o.

  Enquanto a carca?a de seus familiares caminham com dificuldade em sua dire??o, a garota engatinha para trás… Mas acaba batendo as costas e a nuca contra a parede.

  Desolada, o queixo contorcido e as sobrancelhas esticadas para o alto, expressam seu horror de forma genuína. Ser novamente espancada pela família que sempre a menosprezou, a torturou e a abandonou…

  Parecia um fim apropriado para alguém como ela, ser espancada e dilacerada ainda viva. Alguém que nunca teve a coragem necessária para lutar. Que nunca teve o talento para ir além. Nunca encontrou a vontade para superar os seus traumas… Pelo contrário, se escondeu em uma cabana ao longo de dez anos, em busca de encontrar o seu lugar, ao dar às pessoas os seus melhores sonhos. Mas até mesmo isso falhou…

  Sua existência seria, por toda a eternidade, reduzida à uma mera Bruxa da Floresta. Uma doadora de sonhos, mas uma enganadora, alguém t?o covarde quanto essas pessoas que fogem da realidade.

  Jeanice morde os próprios lábios. As figuras cadavéricas se aproximam para agarrá-la e quebrá-la membro a membro…

  Fechando os olhos, ela realmente está conformada de que esse seria o seu fim?

  A energia da carta sobre o seu colete, é a única coisa confortável que a mantém lúcida. Uma energia avermelhada, calorosa e perfumada como um óleo de rosas.

  Sob a mente de Jeanice, a imagem de Carmen aparece sorridente, convicta da sua for?a. Em seguida, o inabalável Yurgen encara adiante sem nem mesmo desviar o olhar e, por último, o corajoso Raisel. Alguém mais novo que ela, mas que ainda assim, luta contra o seu destino injusto.

  “Eu decidi… brilhar como eles…!”

  Apertando a varinha na cintura, a névoa espectral sobre a ponta, ganha a forma de incontáveis rostos distorcidos como caveiras azuladas.

  Ao estendê-la rapidamente, o Gewissen da garota manifestou a sua Constela??o de Corvus acima da cabe?a. A voz, rasgada, proclamou em um tom autoritário:

  一 Neblige Kometen!

  Projéteis grandes como bolas de demoli??o s?o expelidos da varinha como um vendaval enevoado. Elas atingem cada carca?a com for?a o suficiente para estourar a vidra?a enorme e a parede que a sustentava.

  A explos?o ressoa para fora do quarto, emanando uma nuvem em dire??o ao céu.

  Sob o nevoeiro, a figura de Jeanice se levanta enquanto o manto cai ao ch?o. Suas pernas esguias, seus bra?os delgados… Ela n?o se esconderia mais. Porém, uma sensa??o de alívio preenche o seu peito por finalmente revidar…

  Chocada, os olhos esverdeados de Edina deslizam para o lado.

  一 Eu n?o esperava por isso… A medrosa finalmente ganhou alguma coragem… Você vai pagar por destruir a minha arte, Jinny.

  A fala segue cada vez mais preenchida de ódio.

  Sua fei??o escurece com a franja de seu cabelo roxo escuro e volumoso. O andar inteiro estremece perante as vinhas fluídas e enegrecidas que sobem para fora do corpo da Truman.

  Acima da cabe?a, o Selo de Berith aparece.

  一 Eu n?o sou só uma Constelada como qualquer outro. Eu sou uma Viscondessa dos Bealerins… Vou fazer quest?o de entregá-la para o porco do Oseiros. Ele ficará feliz em ter uma outra virgem seu catálogo…~

  Se afastando em passos rápidos, Jeanice continua a apertar o Senhor Oddy contra si com o bra?o esquerdo. Todavia, a varinha apontada indica a sua resistência. Os lábios est?o contraídos. O medo dela é evidente, mas ainda assim, a sua disposi??o para lutar vem da sua última tentativa de mudan?a…

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