home

search

Capitulo 10 Pier 1

  Telúria estava em silêncio.

  N?o é um silêncio natural, mas o tipo que surge depois de algo grande demais para ser entendido. A ilumina??o azul da cidade retornava gradualmente, porém agora parecia fria, quase hostil. Moradores se aproximavam com cautela do epicentro do evento, murmurando entre si, tentando transformar o inexplicável em conversa simples.

  Os blocos de gelo que foram feitos se erguidos do ch?o continuaram intactos. N?o derretiam. N?o escoriam. Mantinham a própria temperatura, como se possuíssem um núcleo interno de preserva??o.

  Guardas cercavam a área. Veículos de seguran?a ocupavam as ruas próximas. Um navio completo avan?ava em forma??o, isolando o perímetro.

  Ruth apresentou deitada no asfalto quando chegou até ela.

  à primeira vista, parecia apenas desacordada. Mas, ao se aproximarem, tornou-se evidente que havia algo mais. Uma luz fraca pulsava no centro de sua testa. N?o era reflexo. N?o foi efeito residual.

  Era um cristal.

  Pequeno. Translúcido. Inserido exatamente entre as sobrancelhas, emitindo um brilho suave e constante.

  Gehard se agachou ao lado dela, observando com aten??o clínica.

  — Eles estavam aqui — disse Raul, analisando as marcas no ch?o. — E gelo?

  Gehard passou os olhos pelas forma??es cristalizadas.

  — Isso é novo para mim também.

  Equipes médicas coletaram a acomoda??o Ruth numa maca.

  — Ela tem as respostas — contínua Gehard. — Vamos ao centro. Lá averiguamos com dados completos.

  Raul olhou para os socorristas.

  — Ela está bem?

  — Sinais componentes importantes. Nenhuma les?o aparente.

  Enquanto a maca era erguida, Gehard inclinou-se novamente, o olhar fixo no cristal na testa dela.

  — O que é que temos aqui...

  Subitamente, Ruth abriu os olhos.

  O ar entrou em seus pulm?es de forma brusca, como se tivesse emergido debaixo d'água. Seu corpo tensionou por um segundo antes de relaxar parcialmente.

  — Se acalme — disse Gehard, em tom controlado. — Você está seguro. Sabe onde está?

  Ela foi original, ainda processando o ambiente.

  Os olhos dela estavam lúcidos. N?o havia confus?o.

  — Cadê... — ela respirou fundo — cadê todos eles?

  Raul cruzou os bra?os.

  — Pelo que parece, deixei você para trás.

  Havia ironia na voz dele, mas também curiosidade.

  — Você consegue explicar o que estava fugindo? E o que foi isso tudo?

  Ruth mandou-se devagar, ignorando a m?o que tentava contê-la. O cristal em sua testa pulsou uma vez antes de se estabilizar.

  Quando falou, sua voz n?o tremia.

  Era técnica. Preciso. Racional.

  — O evento foi uma ocorrência energética causada por ressonancia estrutural entre o núcleo de Telúria e uma matriz externa de ativa??o iniciada anteriormente em outro ponto geográfico.

  Raul Piscou.

  — Em português.

  — O núcleo amplificou algo que já estava ativo — explicou ela, com paciência calculada. — Eu apenas servi?o de motorista temporário.

  Gehard a observava com aten??o redobrada.

  — E o gelo?

  — N?o é gelo comum. é cristaliza??o energética estável. Ele n?o derrete porque n?o depende da temperatura ambiente. Depende da frequência que o originou.

  Ela olhou ao redor, analisando as forma??es como se os dados fossem em tempo real.

  — Preciso ir ao Centro. Preciso verificar os registros do núcleo. Sem isso, qualquer explica??o será especula??o.

  Houve um breve silêncio entre os dois homens.

  Ela n?o parecia desorientada. N?o parecia em choque.

  ...além.

  Gehard fez um gesto discreto.

  — Vamos.

  Ruth pediu-se da maca antes que alguém tentasse impedi-la.

  Enquanto caminhava em dire??o aos veículos, Raul murmurou baixo para Gehard:

  — Isso n?o foi.

  Gehard os olhos nela.

  — N?o.

  E o pequeno cristal na testa de Ruth continuava pulsando, como se registrasse tudo ao redor.

  


  


  A mini van avan?ava pela estrada estreita que levava ao litoral. O céu iluminado pela lua revelava a paisagem fria na penumbra da noite litoranea, mas ninguém dentro do veículo parecia disposto a admirar. O que tinha vivido nas últimas horas ainda ecoava pesado demais.

  Pedro foi o primeiro a romper o silêncio, inclinando-se entre os bancos da frente.

  — Tá, galera... acho que já dá pra falar, né? Os poderes de Ruth. Quando foi que ela descobriu isso?

  Maisa cruzou os bra?os, pensativa.

  — Eu acho que ela também n?o sabia. Ela n?o estava no dia da explos?o.

  — Justamente por isso — respondeu Pedro. — Ent?o de onde veio aquilo tudo?

  Evan mantinha os olhos na estrada, mas estava claramente envolvido na conversa.

  — A origem deve ser outra. Diferente da nossa. Ela está conectada ao núcleo de alguma maneira... mas como, eu ainda n?o sei.

  Graceu a cabe?a no encosto e apoiou-se para as próprias m?os.

  — Quando eu me aproximei dela, senti uma amplia??o absurda no meu poder. N?o era só adrenalina. Era como se algo estivesse...alinhando.

  Luiz se inclinou para frente.

  — Quando eu desliguei o núcleo, também senti. Foi como se a energia estivesse aumentando conforme a gente se aproximasse.

  — Sim — confirmou Beth. — Eu senti a mesma coisa. N?o foi coincidente.

  Evan respirou fundo.

  — No bosque eu sinto algo parecido. Como se meu poder estivesse sendo ampliado por alguma presen?a externa.

  A van passou por uma curva mais fechada, o mar come?ou a aparecer ao longo entre as árvores.

  Cristopher ficou em silêncio até ent?o, observando tudo com aquele olhar analítico que sempre antecedeu uma conclus?o inc?moda.

  — Estou come?ando a considerar uma possibilidade — disse por fim.

  O grupo imediatamente voltou para ele.

  — Fala logo — pediu Pedro.

  — Ainda n?o — respondeu Cristopher com calma. — Eu preciso organizar melhor. Se minha hipótese estiver correta... encontrar a Anne será muito mais difícil do que imaginamos.

  — Que hipóteses? — perguntaram quase em coro.

  Ele balan?ou a cabe?a levemente.

  — Quando chegarmos ao Pier. Quero observar o local primeiro. Mas tem a ver com nossos poderes. E com o núcleo.

  Pedro bufou.

  — Certo ent?o, esperado. Guarda o mistério por mais cinco minutos.

  Mas ninguém riu de verdade.

  Porque, no fundo, todos sabiam que algo estava se conectando.

  N?o era só coincidência.

  Enjoying the story? Show your support by reading it on the official site.

  N?o era só sobre meteoros.

  N?o era só sobre Ruth.

  Era como se houvesse um padr?o invisível entre o meteoro do Vale, o do Pier, o núcleo de Telúria... e eles.

  A van seguida em dire??o ao farol que come?ava a se desenhar no horizonte.

  E, pela primeira vez desde que tudo come?ou, a sensa??o n?o era apenas de fuga.

  Ruth permaneceu diante dos monitores do centro energético havia horas. Linhas de dados percorriam as telas em sequências densas de números, gráficos de frequência, picos de potência e registros de oscila??o que se sobrepunham como camadas de uma deficiência impossível de retomar em um único relatório.

  Raul já come?ou a perder a paciência.

  — Você está analisando ou nos enrolando? — Disse, sem disfar?ar a desconfian?a.

  Gehard n?o interveio. Apenas observei. Ele conhecia aquele tipo de silêncio concentrado; Sabia que Ruth n?o estava improvisando.

  Ela finalmente tirou as m?os do painel e se virou para eles.

  — Eu preciso que tenha paciência. S?o muitas variáveis. Frequência, amplitude, sobreposi??o de campos. Nada aqui é linear. Nada é lógico no sentido convencional.

  Raul cruzou os bra?os.

  — Tradu??o.

  Ruth respirou fundo.

  — Se minhas conclus?es s?o corretas, o epicentro da ocorrência n?o foi o núcleo.

  Gehard se aproximou do olhar.

  — Explique.

  — O núcleo reagiu. Mas n?o iniciou. A ocorrência foi causada por algo que se moveu e quase rasgou o espa?o-tempo.

  O silêncio que se seguiu foi pesado.

  Gehard abriu levemente os olhos. A ideia que surgiu em sua mente era antiga demais, perigosa demais para ser dita em voz alta. Ele é um conteve.

  — Você está querendo saber o quê? — Raul pressionou.

  — Que Evan é o epicentro — respondeu Ruth, direta.

  Raul soltou um riso curto, incrédulo.

  — Um garoto.

  — Um ajuste — corrigiu ela. — Eu estive exposto à radia??o do núcleo por anos. O que aconteceu hoje n?o foi simplesmente sobrecarregado. Foi ativado. Evan desencadeou a ocorrência do núcleo e, ao fazer isso, amplificou o que estava adornado em mim.

  Ela tocou o pequeno cristal em sua testa.

  — Agora eu possuo uma energia quantitativa e ressonante ao núcleo. Se mal direcionado, pode me matar. Ou pior.

  Raul Franziu o Cenho.

  — Ent?o, se Evan se aproximar do núcleo novamente, ele o vingan?a?

  Ruth hesitou apenas um segundo.

  — Acredito que sim. E acredito que n?o.

  — Isso n?o é resposta — disse Gehard.

  — Ele já ativou o que estava latente. Tanto em mim quanto neles. A energia liberada por Evan n?o desapareceu. Ela ressoa. Assim como o núcleo ressoa comigo. Enquanto essas frequências estiverem contidas, nada acontece. Se entrarem novamente em sobreposi??o...

  Ela n?o completou.

  — Ent?o Evan é uma espécie de núcleo humano? — Raul insistiu.

  – Negativo. Ele n?o é núcleo. Ele é fonte.

  O termo ficou no ar.

  — N?o é só ele — Ruth contínua. — Anne também liberou energia. Ela veio do portal. E acredito que parte dessa energia tenha sido limitada para Grace e Luiz.

  Gehard cruzou os bra?os lentamente.

  — Ent?o, se sua teoria tiver certa, aquelas criaturas encapuzadas querem...

  — Abrir o espa?o-tempo — completou Ruth.

  Raul para Gehard.

  — Se pegaram Anne para abrir algo... v?o atrás de Evan para atravessar o quê?

  Gehard respondeu antes que o silêncio crescesse demais.

  — N?o vamos ficar aqui esperando para descobrir.

  Ruth voltou para os monitores.

  — Eu n?o posso sair agora. Preciso entender como conter isso.

  Raul ?-se um passo.

  — Redirecionamento. Você sempre disse que n?o criaria tecnologia armamentista. Mas a Terra está sob amea?a real. Talvez seja hora de abrir a m?o de alguns ideais para proteger algo maior.

  Ruth o encarou. N?o havia orgulho ali, apenas design.

  Ela assentiu.

  — Ent?o precisaremos de tempo. E dados.

  Um guarda entrou apressado na sala.

  — Senhor, há entrega no Posto 7.

  Raul virou-se imediatamente.

  — Local?

  — Cais 1.

  O nome pairou pesado no ar.

  — é para lá que foram — disse Raul.

  Gehard sentiu um frio percorrendo-lhe a espinha, diferente do gelo da Telúria.

  N?o era temperatura.

  Era presságio.

  — n?o vamos —.

  E enquanto as equipes se organizavam para partir, os dados nos monitores continuavam a piscar, como se o próprio sistema estivesse tentando acompanhar algo que já estava um passo à frente.

  


  


  O grupo chegou ao Farol pouco antes do amanhecer. O litoral n?o era mais como nas antigas praias registradas em fotografias esquecidas. A linha entre mar e terra havia se tornado mais abrupta, um contraste quase bruto entre a água escura e a vegeta??o que avan?ava até o limite das pedras. árvores cresceram próximas demais da rebenta??o, campos de grama resistiram ao sal, e grandes rochas irregulares moldaram o terreno como cicatrizes geológicas.

  A mini van parou próximo ao farol, e eles desceram em silêncio.

  Evan foi o primeiro a falar, ainda observando o horizonte.

  — Vamos ficar aqui até amanhecer. Assim que esclarecer, vamos procurar o portal.

  Pedro manifestou as sobrancelhas.

  —Portal? Essa é sua ideia agora, seu boco?

  Evan ignorou a provoca??o.

  — Eu acredito que existe um portal aqui. Foi por isso que Gehard nos trouxe para a Terra por esse ponto. Quando ele atravessou, foi por aqui. Se eu conseguir sentir a energia... talvez consiga reativá-lo.

  Grace cruzou os bra?os, olhando para o mar.

  — Anne deve estar do outro lado. N?o a leve para toa. E com certeza irei atrás de você, Evan.

  Ele assentiu.

  — Eu sinto isso.

  Cristopher apoiou-se na base do farol, pensativo.

  — é aí que minha teoria entra.

  Todos se voltar para ele.

  — Se eu estiver certo, Anne foi capturada para abrir um portal. Mas acho que eles também precisam do Evan. E n?o só para capturá-lo. Preciso dos dois.

  — Para quê? — disse Luiz.

  — Porque talvez o plano ainda n?o esteja completo. Talvez eles tenham iniciado algo... mas n?o terminaram.

  — Capturar o Evan — completou Luiz.

  Evan balan?ou a cabe?a, interrompido.

  — N?o é só isso. Eles atravessaram alguma coisa. Eu senti quando apareceu na Telúria. Uma era energética diferente. Mais densa. Mais sombrio que os outros Sussurros.

  Maisa olhou ao redor, inquieta.

  — Ent?o precisamos agir antes de voltarmos. Se houver mesmo um portal aqui, talvez possamos entender o que está tentando atravessar.

  O vento do mar soprou mais forte naquele momento, como se o próprio lugar reagisse à conversa.

  — Vamos descansar algumas horas — decidiu Evan. — Ao amanhecer, a gente ronda a área. Procuramos pela assinatura energética. A partir da exposi??o ao núcleo, nossos poderes foram ampliados. Se nos concentrarmos juntos, talvez consigamos localizar a fonte. Vamos reativar o portal. Vamos salvar a Anne.

  Eles se acomodaram dentro do farol, espalhando-se pelo piso frio de pedra. O cansa?o acumulado das últimas batalhas venceu rapidamente. Mesmo inquietos, acabei cochilando.

  Quando acordei, o sol já estava alto.

  O dia estava claro demais para combinar com o que carregavam por dentro. As ondas batiam contra as pedras com ritmo constante, e a maresia atingia seus rostos como se tentasse purificar o ar de tudo o que havia acontecido. Por alguns segundos, parecia um momento de paz óbvio.

  Mas todos sabiam que era frágil.

  Reuniram-se do lado de fora, próximo à base do farol. O vento movia os cabelos de Grace e agitava a superfície do mar.

  Evan olhou para cada um deles.

  — Vamos nos espalhar pelo perímetro. Concentre a energia. N?o use for?a bruta. Conduzam. Desde o núcleo, nossos poderes mudaram. Vamos tentar conectar nossa frequência com o local.

  Pedro abriu os bra?os, já entrando no clima.

  — Se aparecer alguma coisa caindo do céu, dessa vez eu quero crédito.

  Cristopher ignorou o comentário.

  — Foco. Se existir um rasgo aqui, ele terá assinatura residual. precisamos sentir o padr?o.

  Grace fechou os olhos primeiro. Uma aura roxa clara come?ou a vibrar ao redor dela, mas de forma controlada. Maisa deixou o ar ao redor se movimentar suavemente. Luiz concentrou luz entre as m?os. Beth respirou fundo, buscando estabilidade. Pedro pousou a m?o no solo, atento à vibra??o subterranea.

  Evan encontra-se de pé, olhando para o mar.

  Ele n?o for?ou.

  Ele apenas sêmen.

  E, aos poucos, algo respondeu.

  N?o vinha da.

  Nem do cró.

  Vinha da borda entre as pedras e a água.

  Uma press?o sutil. Uma exce??o quase invisível no ar.

  Como se o espa?o ali estivesse concentrado mais fino.

  Evan abriu os olhos lentamente.

  — Aqui — murmurou.

  O vento mudou de dire??o.

  E o mar, por um instante, pareceu recuar. O grupo avan?ou até a borda do litoral, onde a terra terminava em acúmulos irregulares de pedras moldadas pela maré. A vegeta??o recuava ali, dando lugar ao contraste bruto entre o verde da mata e o azul profundo do mar. O vento vinha mais forte naquele ponto, trazendo o cheiro salgado que parecia cortar a pele.

  Evan o passo.

  Quanto mais se aproximava da água, mais a energia pulsava dentro dele. N?o era como no núcleo. N?o era expans?o.

  Era chamado.

  Ele parou sobre uma das pedras mais planas e fechou os olhos por um instante.

  — Está lá — disse, baixo, mas com certeza.

  Grace franziu o cenho.

  — Lá onde?

  Evan abriu os olhos e encarou o horizonte.

  — Na água.

  — Você acha que está no fundo do mar? — ela perguntou.

  Ele hesitou.

  — N?o exatamente. Parece mais... à frente. Como se estivesse além do que a gente consegue ver daqui. N?o sei explicar.

  Pedro girou o próprio corpo, encarando o cenário vazio ao redor.

  — Al?? Olha em volta. N?o tem nada aqui. O cabe?a de peixe aqui n?o consegue abrir um caminho pra gente até lá, que nem aquele "Noa" que o pessoal falava que abriu o oceano e pipipi popopo?

  Cristopher suspirou.

  — Noé, gênio. E ele abriu o mar com um cajado. Eu n?o tenho um cajado. E, sinceramente, talvez esse nível de habilidade esteja alguns degraus acima do que eu consigo fazer agora.

  Pedro ergueu as m?os.

  — Ent?o tá explicado. Sem cajado, sem milagre.

  Evan n?o perdeu tempo com a provoca??o.

  — O plano continua. Procurem qualquer coisa que flutue. Barco, bote, lancha, jangada... qualquer coisa. Se precisarem, se dividam. Eu fico aqui. Vou tentar me conectar melhor com a energia do portal. Talvez eu consiga abrir daqui.

  Luiz assentiu.

  — Certo. Tome cuidado.

  Um a um, eles se afastaram pela linha da costa e pela vegeta??o próxima, em busca de qualquer embarque abandonado.

  Evan.

  Posicionou-se de frente para o mar. Fundo inspirador. Fechou os olhos.

  A energia estava ali. Mais forte agora.

  N?o vinha apenas da água.

  Vinha de dentro da água.

  Ele sentiu como se algo pulsasse sob a superfície, como um cora??o submerso.

  O meteoro.

  A onda que atingiu o farol anos atrás.

  Será que ainda estava lá?

  O nervosismo come?ou a crescer, mas n?o era medo. Era instinto. Como se seu corpo reconhecesse que estava prestes a cruzar um limite invisível.

  Foi ent?o que ouviu.

  Um estalar seco.

  Galhos.

  Folhas sapatadas.

  O som vinha da mata próximo ao farol.

  Evan abriu os olhos lentamente.

  Entre as sombras das árvores — troncos mais baixos que os do bosque de Aster, mas densos o suficiente para ocultar o movimento — três figuras se destacam.

  Os Sussurros.

  As máscaras de bode refletem a luz do dia com um brilho opaco. As correntes pendiam de seus bra?os, laminas balan?ando levemente.

  Mas havia algo diferente. O terceiro n?o era igual aos outros. A máscara n?o era de bom presságio. Era de alce.

  Os chifres eram grotescos, assimétricos, dois se curvando para cima como lan?as retorcidas, e dois se projetando para baixo como presas de mamute. A presen?a que emanava dele era mais pesada, mais densa, quase instru??es o ar ao redor.

  N?o era apenas um Sussurro. Era o líder deles.

  Ent?o foi isso que atravessaram quando capturaram Anne?

  N?o era hora de responder. Eles já se posicionaram. As correntes se tensionaram. A areia sob os pés deles come?ou a vibrar levemente.

  Evan n?o te.

  Pela primeira vez desde que tudo come?ou, ele n?o sentiu vontade de fugir.

  Sentiu necessidade de enfrentar.

  A energia dentro dele n?o estava assustadora.

  Pronto.

  O mar atrás dele rugiu mais alto, como se testemunhasse o momento.

  O treinador era vita.

  E, ali, diante do farol e da imensid?o do oceano, algo dentro de Evan compreendeu que aquela n?o seria apenas mais uma batalha

Recommended Popular Novels